Todo brasileiro tem direito a fraldas descartáveis grátis, diz STJ.

Direito reivindicado pelo Ministério Público para jovem portadora de patologia congênita é estendido a todos por determinação do Superior Tribunal de Justiça.
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SÃO PAULO – Uma decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) garantiu a todos os brasileiros o direito de receber fraldas descartáveis gratuitamente caso não tenham recursos para arcar com os custos.

Em julgamento de recurso especial interposto pelo Ministério Público de Santa Catarina, a segunda turma do STJ garantiu o direito a todos os brasileiros em ação civil pública destinada a garantir o fornecimento de fraldas descartáveis a portadores de doenças que necessitem desse item e não tenham condições de arcar com seu custo. A decisão foi unânime.

A ação foi movida em favor de uma jovem de 21 anos, portadora de um conjunto de patologias de origem congênita. A família, de baixa renda, não conseguia arcar com o custo das fraldas descartáveis, de aproximadamente R$ 400 por mês, e o MP conseguiu garantir na Justiça o fornecimento gratuito pelo estado.

Na ação, o Ministério Público pediu o que fosse atribuída eficácia ‘erga Omnès’ (para todos) à decisão. O juízo de primeiro grau acolheu o pedido, mas o Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC) reformou a sentença.

Segundo o acórdão, “não se afigura razoável impor ao estado e aos municípios suportar os custos de publicação da sentença (artigo 94 do Código de Defesa do Consumidor) para atribuir-lhe eficácia erga omnes, nos casos em que a ação civil pública foi ajuizada para tratar da especificidade do caso concreto de uma determinada pessoa, cuja situação sequer poderá reproduzir-se no futuro ou poderá estar superada pela dinâmica de novos tratamentos ou medicamentos”.

No recurso ao STJ, o MP alegou que o acórdão, ao limitar a eficácia da decisão, deixou de observar que “a tutela difusa concedida na sentença, naturalmente, será objeto de liquidação individual, oportunidade em que os interessados deverão produzir a prova da necessidade”.

O ministro Og Fernandes, relator, também entendeu pela abrangência da sentença prolatada. Ele citou decisão da Corte Especial do STJ, em julgamento de recurso repetitivo, no sentido de que “os efeitos e a eficácia da sentença não estão circunscritos a lindes geográficos, mas aos limites objetivos e subjetivos do que foi decidido, levando-se em conta, para tanto, sempre a extensão do dano e a qualidade dos interesses metaindividuais postos em juízo”.

“A ausência de publicação do edital previsto no artigo 94 do CDC, com vistas a intimar os eventuais interessados da possibilidade de intervirem no processo como litisconsortes, constitui vício sanável, que não gera nulidade apta a induzir a extinção da ação civil pública, porquanto, sendo regra favorável ao consumidor, como tal deve ser interpretada”, acrescentou o ministro.

Desse modo, concluiu o relator, “os efeitos do acórdão em discussão nos presentes autos são ‘erga omnes’, abrangendo todas as pessoas enquadráveis na situação do substituído, independentemente da competência do órgão prolator da decisão. Não fosse assim, haveria graves limitações à extensão e às potencialidades da ação civil pública, o que não se pode admitir”.

Fonte: Estadão

Foto: Google

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Análise da compatibilidade da deficiência com o cargo deve ser feita no estágio probatório.

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O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou aos órgãos do Poder Judiciário que deixem de realizar exames prévios para saber se a deficiência física de candidatos em concursos públicos é ou não compatível com o exercício do cargo para o qual eles foram aprovados. A decisão foi tomada pela maioria dos conselheiros, durante o julgamento de dois pedidos de providências, na 183ª Sessão Ordinária do órgão, realizada na tarde de terça-feira (25/2), em Brasília.  Prevaleceu o voto divergente, apresentado pelo conselheiro Rubens Curado. Na avaliação dele, a compatibilidade somente deve ser aferida no decorrer do estágio probatório – ou seja, após a posse do servidor selecionado.

A questão foi apreciada no julgamento dos Pedidos de Providência 0005325-97.2011.2.00.0000 e 0002785-76.2011.2.00.0000, movidos pela Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional do Mato Grosso do Sul e pelo Ministério Público Federal. Eles requeriam o afastamento da previsão de avaliação prévia da deficiência do candidato aprovado em concurso com as atribuições do cargo constante nos editais, assim como a uniformização de regras de concurso público para servidores do Judiciário, no sentido de que a compatibilidade da deficiência do candidato aprovado no certame fosse verificada exclusivamente durante o estágio probatório.

O conselheiro Emmanoel Campelo, relator dos procedimentos, votou pela improcedência por entender “não ser irregular nem ilegal o exame prévio de compatibilidade da deficiência declarada com o cargo ao qual concorre o candidato”..

Ao apresentar seu voto-vista, o conselheiro Curado esclareceu que não se discute a realização de perícia por comissão multidisciplinar para delimitar e determinar a existência e extensão da deficiência, até para o candidato ter a certeza se deve ou não concorrer às vagas reservadas às pessoas com deficiência. “O cerne da discussão é outro e diz respeito ao momento em que deve ser procedida a averiguação da compatibilidade entre a deficiência do candidato aprovado e as atribuições a serem por ele exercidas no cargo”, explicou.

Na avaliação de Curado, garantir à pessoa com deficiência o direito à avaliação da compatibilidade entre as atribuições do cargo e a sua deficiência durante o estágio probatório é a “solução que mais se coaduna com a integração social desejada pela sociedade democrática”, a teor do que dispõe a Constituição Federal e a Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo Brasil e com força de emenda constitucional . Curado também lembrou que a regra encontra-se descrita no artigo 43 do Decreto nº 3.298, de 20.12.1999, que dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. O próprio CNJ também adotou a regra na Resolução nº 75/2009, que trata dos concursos públicos para ingresso na magistratura.

“São públicos e notórios casos de pessoas com deficiência detentoras de talentos excepcionais, a superar eventuais limitações físicas. São igualmente públicos e notórios pareceres prévios apressados, e por vezes injustos, acerca da ‘compatibilidade’ de tais deficiências com as atividades do cargo”, afirmou o conselheiro, em seu voto.

Curado destacou não vislumbrar uma única hipótese em que a mais grave das deficiências possa ser considerada incompatível com as atividades de um cargo de servidor do Judiciário. “Ao que me parece, toda e qualquer dificuldade teórica de compatibilidade pode ser superada no curso do estágio probatório, a depender do talento, da operosidade, das habilidades e das atitudes do candidato”. E ressaltou: “parece-me pouco democrático, quiçá discriminatório, diante do contexto normativo mencionado e do aludido dever de integração social, ceifar um candidato com deficiência, já aprovado nas provas de conhecimento, do direito de demonstrar, na prática do dia a dia do estágio probatório, não apenas a compatibilidade da deficiência com as atribuições do cargo, mas que detém talento, habilidades e atitudes suficientes para, eventualmente, suprir e superar a sua deficiência”.

Fonte: Âmbito Juídico.com.br
Imagem: Google

 

Cadeirante brasileiro completa backflip e sonha com Megarampa

Pedro Henrique Amorim é o primeiro a realizar o feito no Brasil, segundo no mundo. Façanha aconteceu em pista pública de skate em São Paulo
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Seja de moto, jet ski, no surfe ou sand board, o backflip é a manobra mais desafiadora dos esportes radicais e poucos atletas já se arriscaram a executar o perigoso mortal para trás. Recentemente, um brasileiro corajoso entrou para esse seleto grupo ao realizar a manobra a bordo de uma cadeira de rodas. Aos 28 anos, Pedro Henrique Amorim é o primeiro cadeirante do Brasil, segundo do mundo, a alcançar o feito e afirma que não vai parar por aí.

– Quando você acerta não tem sensação melhor. É a melhor sensação do mundo quando você consegue completar uma manobra, uma coisa que você está tentando há muito tempo. Quero chegar no topo do mundo, no máximo que der. Na Megarampa seria um esquema legal – afirmou Pedro.

A façanha de Pedro aconteceu em uma pista pública, em frente à praia, na cidade de Caraguatatuba, litoral Norte São Paulo. Antes disso, apenas o americano Aaron Wheelz havia conseguido completar a manobra, o que inspirou o brasileiro.

– Eu comecei a fazer manobras vendo o vídeo dele, com certeza ele me inspirou bastante.

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Mas a trajetória do atleta até a conclusão da manobra não foi fácil. A vida de Pedro começou a mudar após um acidente de carro, em 2005, o impossibilitar de caminhar. Apesar das dificuldades, ele seguiu em frente e começou a praticar o hardcore sitting, onde adaptou o surfe e o skate para sua nova condição. Os treinos para realizar o backflip começaram há um ano e quatro meses e nesse período foram oito cadeiras quebradas, até o desenvolvimento de uma cadeira especial, como explica Pablo Abreu.

– É uma cadeira leve, pesa seis quilos, tem sistema frontal de amortecimento, que é a única forma que a gente tem para segurar os impactos, e além de tudo ela é toda travada, uma cadeira que não quebra. As rodas são reforçadas, pneu grosso, folha de BMX profissional. São rodas que saem para ter mais mobilidade e foi graças a ela que a gente conseguiu todas as manobras. Enquanto a gente não tinha uma cadeira dessa, não tinha desenvolvido, a gente ficou na mesmice – disse Pablo.

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Além da tecnologia da cadeira, outras providências são essenciais para a segurança do atleta. Pedro não dispensa o capacete específico de BMX, as cotoveleiras e joelheiras. Ele também conta com a ajuda do skatista Marcelo Castilho, seu companheiro nas pistas, para conseguir melhorar cada vez mais.

– Sou companheiro dele na sessão. Todo skatista, qualquer atleta radical, tem que ter alguém do lado, porque queira ou não queira chega ser perigoso praticar sozinho. Para a cadeira de rodas, como é novo, me adaptei e estou do lado dele para ajudar a subir rampa, saber onde passar, por onde ir para pegar velocidade – afirmou Marcelo.

Antes de realizarem qualquer manobra, Marcelo e Pedro analisam os obstáculos e calculam os movimentos que farão. Isso evita que acidentes aconteçam, além de conseguirem sincronizar as manobras que farão na sessão.

– Hoje em dia a gente tem toda uma técnica de cair. A gente tem que aprender a fazer as manobras, mas antes tem todo um esquema de você aprender a cair também para não se machucar. Saio rolando, não deixo ralar o corpo no chão – explicou Pedro.

A cadeira também conta com um cinto com velcro que prende as pernas de Pedro ao assento e outro para manter os pés firmes. A rampa escolhida para realizar a manobra tem aproximadamente 1,60m de altura e Pedro precisou de apenas três tentativas para realizar o backflip completo.

– O impulso é com o pescoço. Na hora que a cadeira começa a subir na rampa, já jogo a cabeça para trás e depois, na sequência, puxar com o braço, a tendência dela é virar. Quando estou de cabeça para baixo já tenho a manha de olhar para ver como vou aterrissar.

Fonte: SporTV – Zona de Impacto

Fotos: Reprodução SporTV e Pablo Moya de Abreu

Menina com paralisia não volta às aulas por falta de estrutura de escola

Escola onde Manuela estuda precisa contratar funcionário para ajudá-la.
Secretaria da Educação de Canoas garante que caso será resolvido.

Aos cinco anos, a pequena Manuela Soares foi a única aluna de sua turma que não voltou às aulas, iniciadas no dia 6 de fevereiro em uma escola municipal de Canoas, na Região Metropolitana. A menina nasceu nasceu com paralisia cerebral e tem vaga garantida na rede pública do município. No entanto, a escola não tem condições de recebê-la no momento por falta de um funcionário que a acompanhe.

Manuela frequenta a Escola Municipal de Educação Infantil de Canoas desde 2012, mas teve de se afastar em junho do ano passado para fazer uma cirurgia no quadril. Mesmo assim, a rematrícula foi realizada. Só que a instituição não tem uma pessoa para acompanhar a menina de perto e ajudar a professora, como costumava acontecer com a menina.

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A situação preocupa a mãe de Manuela, Berenice Moreira Soares. “Ela já tem essa dificuldade cognitiva, de vivenciar, de conviver com outras crianças. Já tem esse atraso. Quanto mais tempo passar, pior. Para ela e para nós. É uma frustração”, reclama Berenice.

O pai de Manuela trabalha à noite, então precisa descansar durante o dia. “Ficar com ela é uma missão não muito fácil porque ela exige atenção o tempo todo. Não é em qualquer cadeira que ela senta, ela pode sentar e, em um momento de descuido, pode cair”.

A mãe diz que não tem nada contra a escola, mas reclama das falhas no processo de inclusão. “Ela foi muito bem recebida tanto pelos funcionários, quanto pelos alunos. Teve apresentação, ela participou, foi muito bom. Mas, essa questão burocrática é que complica. A inclusão é algo lindo, maravilhoso, mas na prática deixa muito a desejar”, fala Berenice.

A Secretaria Municipal de Educação tem um setor específico para a inclusão de crianças e adolescentes com deficiência. O responsável pelo setor em Canoas, Eri Domingos da Silva, explica que é difícil conseguir estagiários para fazer esse trabalho nas escolas. “Estamos entrevistando candidatos para estágio, para que possam acompanhar não só essa aluna, mas todos os alunos que precisam de apoio. Além da entrevista, eles passam por uma formação para que saibam qual a realidade e a criança”, explica Silva. Segundo ele, o contato da mãe de Manuela para retornar à aula foi somente na última terça-feira (18).

De acordo com Berenice, a escola sabia que a menina voltaria no dia 6 de fevereiro, já que estava rematriculada. “A escola tem o atestado da médica que fez a cirurgia dizendo o tipo de cirurgia, que ela precisava dos meus cuidados, que ela estava de atestado”, repete a mãe.

Conforme Silva, uma reunião presencial foi marcada para a próxima terça-feira (25) entre a secretaria e a família de Manuela. “A escola chegou a fazer esse relato, como outras escolas, mas nós gostamos de um contato direto com a família para ter a percepção da família, e isso ainda não aconteceu, vai acontecer semana que vem com a mãe”, aponta. “Vamos resolver, com certeza. Como outros casos que surgiram, que às vezes não são na mesma rapidez que gostaríamos, mas acabam tendo uma solução, com a participação da escola e da família”, fala.

Fonte: G1

Cientistas desenvolvem técnica que facilita obtenção de células-tronco

Exposição a ambiente ácido transforma células maduras em pluripotentes.
Técnica anterior envolvia complexos processos de manipulação genética.

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Cientistas japoneses descobriram um método extremamente simples para transformar células maduras em células pluripotentes. Estas são capazes de se tornar quase qualquer outro tipo de célula e, por isso, têm grande potencial terapêutico.

Se, antes, se acreditava que essa conversão só era possível por meio de complexos processos de manipulação genética do núcleo celular, uma pesquisa concluiu que a simples exposição dessas células a fatores ambientais específicos, como um pH mais baixo, é capaz de converter uma célula madura em um tipo de célula pluripotente.

Os cientistas do Centro de Biologia do Desenvolvimento Riken, no Japão, que lideraram a pesquisa, chamaram esse novo método de reprogramação celular de Aquisição de Pluripotência Desencadeada por Estímulo (STAP, na sigla em inglês). Os resultados foram publicados na revista “Nature”.

O estudo, feito com células de camundongos, revelou que as células maduras possuem uma plasticidade latente surpreendente. “Essa plasticidade dinâmica – a habilidade de se tornar células pluripotentes – emerge quando as células são transitoriamente expostas a fortes estímulos que elas não experimentariam normalmente em seus ambientes”, diz o estudo.

Esse mesmo tipo de conversão foi observado, durante o experimento, em células coletadas em diversos tecidos, como cérebro, músculo, gordura, pulmão e fígado.

As células STAP têm características parecidas com as células-tronco embrionárias, cujas aplicações terapêuticas são intensamente estudadas atualmente. No entanto, as células STAP têm capacidade limitada de autorrenovação. Mas, sob determinadas condições, podem dar origem a células-tronco com alta capacidade de reprodução, segundo constatação da pesquisa.

Em plantas, já havia sido observado que mudanças ambientais podem transformar células maduras em células versáteis, que podem se transformar em qualquer outra estrutura da planta, como raízes e caule. Esta foi a primeira vez que foi observado um fenômeno similar em mamíferos.

“A abordagem do estudo é o método mais simples, barato e rápido de gerar células pluripotentes a partir de células maduras. Se funcionar no homem, esse pode ser o divisor de águas que no futuro tornará acessível uma ampla variedade de terapias celulares, utilizando as células do próprio paciente”, diz o pesquisador Chris Mason, professor da University College London. “Quem pensaria que reprogramar células adultas para um estado parecido com o de células-tronco embrionárias só iria exigir uma pequena quantidade de ácido por menos de meia hora?”, acrescenta.

Para a diretora do Centro para Células-Tronco e Medicina Reprodutiva do Kings College London, Fiona Watt, “será muito interessante saber se as observações também se aplicam a células humanas”.

Fonte: G1 Ciência e Saúde

“No Brasil, as pessoas não se acostumam nunca com um cadeirante”, diz a estilista Michele Simões

Após passar três meses nos Estados Unidos, a autora de um dos únicos blogs sobre intercâmbio para deficientes relata as descobertas e surpresas durante a viagem e anuncia projetos para aumentar a acessibilidade em São Paulo

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As últimas imagens registradas na mente da estilista Michele Simões, 31 anos, antes do acidente que sofreu em 2006, são de uma noite divertida na balada, ao lado da irmã. Na hora de ir embora, Michele deitou no banco de trás do carro e dormiu. Um breve piscar de olhos que mudou completamente a vida da jovem, na época com 24 anos, recém-formada na faculdade e que há dois meses tentava a vida em São Paulo. “Não conseguia ver muita coisa, acho que por causa da pancada. Perguntei para a minha irmã o que tinha acontecido, pois não conseguia levantar, nem mexer as pernas. Ela pediu para eu ficar calma, que havíamos batido o carro. Fiquei desesperada porque já sabia que havia ficado paraplégica”, contou para a reportagem de Marie Claire.

A lesão na coluna de Michele não só impede os movimentos das pernas como afeta a parte torácica e compromete o equilíbrio de tronco. Nem por isso ela desistiu de realizar um de seus sonhos, interrompido na época do acidente: no final de 2013 ficou três meses nos Estados Unidos vivendo como intercambista. E de sua experiência fora do país nasceu o blog “Guia do Viajante Cadeirante”uma das únicas páginas da web dedicadas ao tema: “como não achei nada na web que pudesse me ajudar, resolvi compartilhar tudo que vivi de bom e de ruim para facilitar a vida de outros cadeirantes”, explica. Durante a conversa, Michele falou de suas descobertas e surpresas durante a viagem, o relacionamento com o namorado, seus próximos projetos e desejos para as mulheres cadeirantes:

Marie Claire: Como se sentiu quando recebeu a notícia de que realmente estava paraplégica?
Michele Simões: 
eu já tinha certeza da minha situação dentro do carro, pois não conseguia mexer as pernas. Foi um acidente bem grave, fiquei três meses internada. Quando confirmaram a notícia, fiquei desesperada, é claro, mas nunca pensei que minha vida tinha acabado ali. Sempre fui muito à luta, naquele momento não seria diferente. Sempre acreditei e ainda acredito que posso voltar a andar. Não sou muito conformada com o que as pessoas dizem, o que posso ser ou não. E isso ajuda muito.

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M.C.: Nessa época já namorava?
M.S.:
 não. Na verdade, já conhecia o Thiago, meu atual namorado. Nós havíamos saído algumas vezes antes do acidente, mas tínhamos decidido que o melhor era ficar só na amizade mesmo. Ele era amigo do namorado da minha irmã na época e, assim que rolou o acidente, foi correndo para o hospital. Foi a primeira pessoa a ficar comigo lá, me acalmou. Durante os três meses que fiquei internada, não deixou de me ver uma vez. Aí, um dia, ele aproveitou que não tinha ninguém no quarto para se declarar. Perguntou se eu achava mesmo que não íamos dar certo, que ele queria namorar porque estava apaixonado. A minha cabeça estava um turbilhão com tudo que estava vivendo. Eu gostava dele, mas não sabia como seria a minha vida e ficava encanada com corpo, vaidade. Mas resolvi seguir o conselho da minha mãe e tentar. Estamos juntos até hoje, a gente é muito parceiro, ele está sempre do meu lado. Até decidiu ir comigo no intercâmbio! (risos)

M.C.: Quando decidiu fazer a viagem?
M.S.: 
era uma vontade antiga. Quando me mudei de Rio Claro para São Paulo, antes do acidente, a ideia era ganhar experiência na minha profissão e juntar dinheiro para morar fora. Depois que tudo aconteceu, tive que adiar. Procurei uma agência no ano passado e eles me informaram que Boston, nos Estados Unidos, era uma cidade com muita acessibilidade. Lá havia uma escola que tinha convênio com um hotel e que eles topavam ser responsáveis por minha estadia, já que não tinha conseguido nenhuma casa de família para me receber. Decidi arriscar e foi ótimo! Embarquei em agosto e deu tudo certo. A cidade, apesar de ter uma arquitetura muito antiga, permite que os cadeirantes sejam muito independentes. Eu ia sozinha para todos os lugares, desde escola e lavanderia até prédios históricos. Lá eu me sentia parte da sociedade de novo.

M.C. E o blog, nasceu quando?
M.S.:
 sempre foi muito difícil encontrar referências na internet. Em 2006, tudo era muito mais aterrorizante, as informações eram raras. Era aquela coisa: você está na cadeira, não vai conseguir fazer nada. Pesquisei muito e só achei um blog de uma cadeirante que havia morado fora do país. Entrei em contato com ela, que nunca me respondeu. Decidi então criar a minha própria página na web para contar tudo que vivia de bom e de ruim e, desta forma, ajudar um próximo cadeirante que desejasse viajar. Lá tem de tudo: desde usar o banheiro do avião, até transportar a cadeira e transitar pela cidade.

M.C.: Qual foi sua maior dificuldade durante a temporada fora de casa?
M.S.:
 meu medo era o principal obstáculo. Fiquei sete anos aprisionada, sem sair ou fazer nada sozinha. Por isso, quando meu namorado decidiu ir junto eu avisei que queria ter essa experiência para ver se eu era capaz de me virar. No primeiro dia de aula, fui sozinha, peguei metrô, estava tremendo. Parecia uma criança indo pela primeira vez para a escola (risos). Só pensava “e se eu cair?”. Mas depois tomei gosto pela experiência e vi que era capaz. As inseguranças acabaram. A ideia era ficar só dois meses, mas me maravilhei tanto com a independência que tinha na cidade, que estiquei a estadia por mais um mês. Por meio do blog, conheci uma brasileira, também cadeirante, que mora em Boston e ela me ofereceu para ficar na casa dela. Ela tem quatro filhos e por conta das responsabilidades do dia a dia, não sai muito de casa. Então, resolvi apresentar a vida em Boston para ela (risos). Ensinei a pegar metrô, coisa que ela nunca tinha feito, fomos ao médico juntas. Foi uma aventura!

M.C.: O que mais te surpreendeu?
M.S.:
 A minha visão sobre mim. Voltei me sentindo muito mais segura e com muito mais vontade de melhorar as coisas. Durante o tempo que fiquei lá e até hoje recebo muitos e-mails, de gente que também é cadeirante e percebe que a vida não acabou. Percebi que posso ajudar.

M.C.: Qual foi a principal diferença da vida nos Estados Unidos e aqui no Brasil?
M.S.
: lá fora não tinha tanto esse olhar de piedade, de te enxergar como como um total incapacitado. As crianças só vão para escolas especiais em última instância, então estão todos acostumados com o diferente. Aqui no Brasil acontece o contrário. Na volta de Boston, no aeroporto mesmo, notei que já tinha muita gente me olhando. Tinha esquecido disso. Brinco com meu namorado ás vezes: olha lá, vai cair uma lágrima daqui cinco minutos (risos). Não é uma coisa que atrapalha, mas quando entrei nesse universo, me sentia constrangida. Logo depois que sofri o acidente, fui ao shopping e virei o centro das atenções. As pessoas não se acostumam nunca com um cadeirante, é incrível. Outra coisa: nos Estados Unidos tinha uma vida normal, foi uma libertação. Eu me sentia parte da sociedade porque tudo é muito acessível. Fui para Nova York sozinha de trem, sem nenhum problema. Aqui não consigo sair na minha rua, tudo tenho que fazer de carro, ligar antes para saber se há acessibilidade para deficientes e pedir para alguém me carregar.

M.C.: O que pretende fazer com o blog agora que voltou?
M.S.: 
vou dar continuidade, com dicas de passeios e lugares interessantes que tenham acesso aos cadeirantes em São Paulo. Já aprendi a nadar e velejar, tudo de graça. Quero incentivar as pessoas nessa área do esporte porque é onde a gente liberta o nosso corpo. Estou procurando parcerias, mas o que dá para eu fazer, eu faço. Já está encaminhado um projeto com uma escola de mergulho, devo fazer o curso e depois o mergulho adaptado nos próximos meses. Também fui atrás do paraquedismo para cadeirantes, mas ouvi coisas absurdas como “não tenho interesse nessa sua ideia porque é muito complicado”. É a vida, estou indo à luta. Minha proposta é procurar caminhos, provar que é possível mudar e mostrar que é possível sair de casa.

M.C.: No dia 8 de março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. O que você acha que precisa mudar no mundo para que ele seja um lugar melhor para as mulheres?
M.S.: 
precisamos aceitar melhor a diversidade e ter consciência que são elas que nos completam. Temos que parar de dividir o lado A do lado B. Como cadeirante, percebo que a a sociedade brasileira não está preparada para lidar com os deficientes. As pessoas nos enxergam como seres de outro mundo. É claro que temos nossas limitações, mas nem por isso somos menos. Essa visão deveria mudar.

Fonte: Revista Marie Claire

Por Larissa Saram

Cegos ou cadeirantes, o esporte integra todos

Por meio do esporte, pessoas com deficiência descobrem uma nova maneira de viver e encarar a vida. De quebra, surgem as medalhas.

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Há três anos, a rotina semanal é mantida na Academia AMK, no bairro Água Verde, em Curitiba. Uma dezena de atletas chega para treinar esgrima no meio da tarde – alguns são cadeirantes, outros usam muletas. O bicampeão de esgrima em cadeira de rodas Clodoaldo Lima Zasatoski, 29 anos, é um deles. Pioneiro no esporte, ele conta que é o único da equipe que tem mobilidade reduzida desde que nasceu, fruto de uma má-formação genética, e que os demais foram prejudicados por acidente de trânsito.

O desafio do grupo é chegar a 30 integrantes e levar a prática a outros municípios do estado. Em Curitiba, o espaço é cedido pela academia e o treinador trabalha voluntariamente, mas os custos com equipamentos são altos. “A esgrima é um dos esportes mais caros. Uma espada pode custar de R$ 300 a R$ 500 e tem também a roupa para treino, mas conseguimos apoio da prefeitura. Temos ajuda para a compra de alguns materiais e para as viagens”, conta Zasatoski, que é um dos diretores da Associação dos Deficientes Físicos do Paraná (ADFP). O apoio também vem dos esgrimistas que treinam à noite no mesmo espaço – chamados entre eles de “convencionais”, por não terem deficiência.

Golfe

A integração dos atletas também ocorre na Asso­­ciação Atlética Banco do Brasil (AABB), onde o professor de Educação Física Anselmo Franco da Silva treina crianças e jovens com deficiência intelectual. O golfe adaptado é montado no espaço, o atletismo ocorre no campo de futebol e os horários das piscinas são intercalados entre os jovens, o que rende encontros no entra e sai da água.

Fora dali, os alunos de Anselmo frequentam bosques, universidades, algumas escolas e clubes. “Faz falta ter estrutura para os treinos em todas as modalidades. Há quadras em que não é permitido o uso por cadeirantes, pois os pneus podem riscar o chão. Mas, principalmente nas escolas especiais e regulares, precisávamos ter espaços adequados”, diz.

As universidades também têm sido procuradas como forma de tentar contornar o problema da falta de estrutura. O goal ball, por exemplo, é praticado por deficientes visuais na Uni­­versidade Tecnológica Fe­­de­­ral do Paraná (UTFPR) e na Faculdade Opet. O técnico Altemir Trapp diz que o grupo conta com 25 participantes, de 12 a 58 anos. “A evolução de quem pratica é muito rápida, com melhora na interação e início de uma vida mais ativa”, conta o treinador, que recentemente foi chamado para comandar a seleção brasileira da modalidade. O time foi campeão na última edição dos Jogos Aber­­tos Paradesportivos do Paraná (Parajaps), assim como a equipe curitibana de esgrima.

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Apoio da família é fundamental

Kele Cristine Contente, 28 anos, descobriu na Escola Alternativa, onde estuda até hoje, que levava jeito pra o golfe. Com o incentivo da família, recentemente ela viajou pela primeira vez para competir nos Parajaps, em Londrina. Voltou com medalha de ouro e disposição renovada para continuar os treinos. Segundo a mãe dela, Ivete Contente, a jovem se transformou depois que começou a praticar atividades físicas – além do golfe, Kele, que tem deficiência intelectual, também treina salto em distância, corrida e beisebol. “Ela ficou radiante com a premiação. O esporte a ajuda a assumir mais responsabilidades, ela se sente muito importante e feliz”, conta Ivete.

De acordo com a professora da rede estadual Evelyn Bettinelli Romualdo Sabadin, que se especializou em Educação Física Adaptada e trabalha na Escola Especial Primavera, os esportes contribuem na formação do aluno como cidadão. “Mesmo praticando esportes individuais, ele aprende a conviver em grupo, ter responsabilidades, reconhece que tem valor, mesmo quando não ganha uma medalha”, diz.

Equipe afinada

O gostinho de ser campeão também foi experimentado por Felipe Sista, campeão na bocha em 2013 nas Paralimpíadas Escolares em São Paulo. O jovem de 17 anos, que sofreu paralisia cerebral, começou a praticar o esporte ano passado, mas não se vê mais sem os treinos que ocorrem ao menos três vezes por semana no câmpus Jardim Botânico da UFPR. A mãe de Felipe, Noeli Navarete Sista, é a motorista do dia a dia de treinamento e, para as viagens de competição, quem assume é o pai. “Se ele fica em casa não tem o que fazer, só fica no computador e não tem motivação. Mas quando tem treino fica feliz, a gente vê a diferença”, conta Noeli.

No time de Felipe há pessoas com deficiência física que vai de distrofia muscular à tetraplegia. A equipe existe desde 1998 e, desde 2002, é treinada pelo professor Darlan França Júnior, que já foi técnico de diversas modalidades de esportes adaptados. “Ainda sobra muita gente com deficiência em casa sem fazer nenhum esporte. Algumas precisam ser convencidas que podem continuar vivendo na sociedade e o esporte permite isso”, defende.

Fonte: Gazeta do Povo – Londrina

Por: ADRIANA CZELUSNIAK