Mãe luta na justiça para que Anvisa libere remédio de maconha para filha de 5 anos

Em nove semanas de uso do CBD, derivado de cannabis sativa sem princípio psicoativo, Anny, que chegou a sofrer cerca de 60 convulsões semanais, teve esse número zerado.

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(KATIELE É MÃE DE DUAS FILHAS: JÚLIA, A MAIS VELHA, E ANY, DE 5 ANOS, QUE NASCEU COM SÍNDROME DE CDKL5 (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Katiele Fischer é uma mãe de 33 anos que mora em Brasília. Sua filha caçula, Anny, hoje com 5 anos, nasceu com uma síndrome rara que provoca convulsões de duas em duas horas. Por causa das crises, Anny não consegue falar e, ainda que tenha aprendido a andar aos três anos, regrediu à estaca zero quando as convulsões pioraram, no ano passado. Mas há poucos meses tudo mudou. Katiele descobriu um composto a base de maconha num fórum de pais na internet e decidiu usá-lo com a filha. Os resultados foram estupendos.

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(OS POUCOS AVANÇOS QUE ANY TEVE REGREDIRAM QUANDO O NÚMERO DE CONVULSÕES AUMENTOU (FOTO: DIVULGAÇÃO)

De sessenta convulsões semanais em outubro, Anny passou por três semanas inteiras sem uma única crise, em janeiro. “O canabidiol devolveu a ela suas funções”, diz Katiele, que viu no produto o tratamento ideal para a filha. Conhecido como CDB, o composto é um dos 60 princípios ativos da planta cannabis sativa, a maconha, e não causa alterações de comportamento. Em muitos estados americanos, é vendido como suplemento alimentar, sem necessidade de receita médica. Foi dos Estados Unidos que o primeiro produto chegou à casa dos Fischer.

A alegria, no entanto, durou pouco. O remédio acabou e Katiele se viu presa numa teia de burocracia que envolvia a Anvisa e os Correios, onde suas encomendas foram barradas – no Brasil, qualquer derivado da maconha é ilegal. Anny, que havia se beneficiado com o CDB, voltou a ter dezenas de convulsões já nos primeiros dias sem o remédio. Foi aí que a mãe decidiu que faria de tudo para conseguir o composto. “Acho que tenho o direito de fazer isso por ela, mesmo sendo uma coisa ilegal”, diz.

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POR CAUSA DA DOENÇA, ANY CHEGA A SOFRER 60 CONVULSÕES SEMANAIS QUANDO NÃO ESTÁ TOMANDO O REMÉDIO (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Hoje, ela se considera uma legítima traficante e pede na justiça que seu ato deixe de ser crime. Se der certo, Anny será a primeira paciente de maconha medicinal no Brasil. Sua história está contada no documentário “Ilegal”, de Tarso Araujo e Raphael Erichsen, que foi lançado na noite desta quinta-feira (27) em São Paulo. Os diretores iniciaram também uma campanha para produzir um site informativo inteiramente dedicado à maconha medicinal. Marie Claire apoia essa ideia. E você?

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O CANABIDIOL, OU CBD, É UM DOS SESSENTA DERIVADOS DA MACONHA E NÃO TEM PRINCÍPIO PSICOATIVO, OU SEJA, NÃO DÁ “BARATO” (FOTO: DIVULGAÇÃO)

Fonte: Marie Claire

 

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Novo CPC contém normas de acessibilidade e regula a justiça gratuita

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Os princípios de acessibilidade estão presentes no novo Código de Processo Civil (CPC – PL 8046/10), aprovado pelo Plenário da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira, que garante às pessoas com deficiência o acesso a sistemas adaptados que permitam a sua participação nas ações judiciais.

O relator do projeto, deputado Paulo Teixeira (PT-SP), ressaltou que a Justiça terá de se adaptar. “Os meios eletrônicos e a própria Justiça terão de se adaptar à pessoa com deficiência para permitir que essas pessoas possam ter um igual tratamento”, disse.

Interdição judicial
As pessoas com deficiência também ganham direitos no processo de interdição judicial, que transfere para outros o poder de administrar bens e direitos de pessoas que forem consideradas incapazes de tomar decisões.

O processo de interdição será mais humanizado, já que deverá respeitar as vontades e habilidades da pessoa com deficiência. A proposta também deixa claro que a interdição pode ser parcial, ou seja, se restringir apenas à administração de bens ou à limitação de um ou outro direito.

O projeto dá às entidades o poder de pedir a interdição de pessoas sob sua responsabilidade, com o objetivo de beneficiar pessoas abandonadas em asilos e clínicas de reabilitação que, por falta de responsáveis legais, não têm como reivindicar direitos.

Justiça gratuita
A Câmara também incluiu no novo Código de Processo Civil a regulamentação da gratuidade assegurada a quem não tem condição de arcar com custas judiciais. O advogado Fredie Didier, integrante da comissão de juristas que assessorou o relator, explicou que a intenção foi resolver questionamentos da lei de gratuidade da Justiça (Lei1.065/50).

“A Câmara regulamentou o processo de obtenção da gratuidade da Justiça para resolver os problemas e, até mesmo, estender a gratuidade para questões extrajudiciais”, disse.

Fonte: http://www2.camara.leg.br/

Estupro não é merecimento, é crime!

 

Estupro é crime conforme previsto no artigo 213 do Código Penal e ainda considerado Hediondo segundo o STJ (Superior Tribunal de Justiça), o que agrava a pena de reclusão prevista de 6 a 10 anos no CP.

Nenhuma mulher independente da roupa que ela esteja usando deve ser submetida a tamanha agressão.Ela deve ter a liberdade de se vestir como quiser sem carregar o medo de sofrer um estupro.

Uma sociedade nos tempos modernos  não pode viver com a cabeça no século passado, em que tudo era culpa da mulher.

As mulheres de hoje são independentes, batalhadoras e não ficam mais submissas a seus maridos. Se isso mudou, o que também tem que mudar é o preconceito e a visão crítica de achar que uma mulher de roupa curta vale menos que uma de burca por exemplo.

Só em uma sociedade preconceituosa aceita-se a ideia de que a vítima é culpada. Vítima é vítima independente do que esteja vestindo.

Somente uma mente doente não consegue manter o controle diante de uma mulher que chame a atenção.

Estuprador não é inocente, é CRIMINOSO. Estuprador não é sedutor, ele é agressor. Sim, agressor…físico e moral e tem que ser punido por isso afinal NENHUMA MULHER MERECE SER ESTUPRADA.

Texto: Fernando Medeiros

Técnica obtém sucesso contra a síndrome do membro fantasma.

Sensação incômoda afeta cerca de 70% das pessoas com membro amputado.

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Em 1965, um trabalhador rural sueco sofreu um acidente que lhe tirou metade do braço direito. Além de precisar se adaptar a uma nova forma de vida, o homem, hoje com 72 anos, passou a sofrer com dores constantes que, muitas vezes, beiravam o insuportável. E onde doía? Exatamente na parte que não estava mais presa a seu corpo. Mesmo depois de amputados, a mão e o antebraço o incomodavam muito, a ponto de não deixá-lo dormir várias noites.

O fenômeno, apesar de parecer estranho, já é conhecido da medicina. Chamado de dor fantasma ou síndrome do membro fantasma, afeta cerca de 70% das pessoas amputadas. O problema ainda tem suas causas estudadas e costuma ser combatido com técnicas como a terapia do espelho, a hipnose, a acupuntura e medicamentos. Mas, para muitos pacientes, essas abordagens não são eficazes. É o caso do cidadão sueco, que, por 48 anos, teve de conviver diariamente com a dor no membro perdido até se tornar voluntário em um experimento conduzido no ano passado na Universidade Técnica Chalmers e cujos resultados foram descritos recentemente na revista Frontiers in Neuroscience.

Ao participar da pesquisa, coordenada por Max Ortiz-Catalan, o paciente, que não teve a identidade revelada, foi o primeiro a experimentar um método que lança mão da realidade virtual para enganar o cérebro e combater a dor fantasma. Com a técnica, ele podia ver sua imagem no vídeo complementada por um braço virtual. E o melhor: conseguia mover o membro de mentira, como se ele fizesse parte de seu corpo.

O segredo está na eletromiografia, tecnologia que usa eletrodos colados à pele para captar sinais musculares. Presos na parte preservada do braço do voluntário, esses sensores enviavam os sinais para um computador, que, munido de complexos algoritmos, os interpretava e transformava em movimentos do braço virtual na tela. Dessa maneira, o homem tentava mexer o membro perdido e via que sua intenção se concretizava no vídeo.

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Os pesquisadores, pediram, então, que ele jogasse um game de corrida no qual, para comandar o carrinho, precisava utilizar o membro virtual. Depois de algumas semanas de prática, a dor fantasma diminuiu consideravelmente, melhorando a qualidade de vida do paciente. “Essa é a primeira vez que alguém utiliza a realidade aumentada e padrões mioelétricos de reconhecimento para tratar a dor no membro fantasma. Estamos prontos para iniciar um teste clínico com três hospitais suecos e alguns outros na Europa. No entanto, se algum pesquisador brasileiro tiver interesse em desenvolver essa pesquisa, peço que entre em contato. Adoro o Brasil e ficaria muito feliz em contar com a colaboração de cientistas brasileiros”, diz ao Estado de Minas  Ortiz-Catalan, que é mexicano.
De acordo com o pesquisador, o alívio experimentado pelo paciente é gerado por uma combinação de reativação de áreas motoras do córtex e de feedback visual. O conjunto é responsável por fazer com que o cérebro acredite que os comandos motores estão realmente sendo executados. Ortiz-Catalan está desenvolvendo outros games para serem adotados na nova terapia. A ideia é que a tecnologia seja comercializada e possa ser aproveitada por pacientes em suas próprias casas. “Não acredito que ela será cara. Até construímos um sistema doméstico, e os pacientes o têm utilizado de forma independente, sozinhos em casa, já há algum tempo”, conta.

Além de obter um resultado muito promissor no tratamento da dor fantasma, o trabalho de Ortiz-Catalan apresenta um uso inovador da realidade aumentada, na opinião de Hamilton Pereira da Silva, professor mestre de engenharia elétrica e informática industrial da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFP). “Ainda não tinha visto nenhum trabalho assim. O uso da realidade aumentada tem uma aplicação interessante para solucionar os problemas psicológicos gerados pelas amputações e até mesmo defeitos congênitos”, elogia o brasileiro, que não participou do estudo.

Atualmente, Silva desenvolve com outros pesquisadores da UTFP uma mão robótica que usa a eletromiografia para permitir o controle pelo usuário. “A aplicação da tecnologia vai até o limite da imaginação humana. Uma pessoa que é surda pode utilizar a realidade aumentada para se orientar e se comunicar. Na medicina, já é uma realidade. O treinamento de médicos é feito com operações virtuais, de forma que nem sempre é necessário usar cobaias”, lembra.

 

Cérebro intacto

Os mecanismos que causam a dor fantasma ainda precisam ser mais bem esclarecidos. Contudo, os especialistas sabem que o problema está em uma falha de comunicação entre o cérebro e a área do corpo amputada. “O paciente sofre a amputação, mas o cérebro continua intacto”, resume Mário Oliveira Lima, coordenador do curso de fisioterapia da Universidade do Vale do Paraíba, em São José dos Campos (SP). Assim, sinais que geram sensações na parte perdida continuam sendo disparados.

Uma área que parece ter grande relação com o fenômeno é o homúnculo de Penfiel, parte do córtex responsável pela imagem que as pessoas têm delas mesmas. “Ainda há receptores naquela região, e essas estruturas não sabem que a pessoa perdeu um braço, por exemplo, e continuam ativando a dor. Essas marcas demoram para sumir do sistema nervoso”, explica Lima, que vê os jogos eletrônicos, como o utilizado no estudo sueco, como uma importante ferramenta terapêutica.

Cláudio Correa, neurocirurgião e coordenador do Centro de Dor e Neurocirurgia Funcional do Hospital 9 de Julho, em São Paulo, conta que a síndrome do membro fantasma é muito comum também em mulheres que precisam retirar os seios por causa de um câncer de mama. Mesmo depois da amputação, a pessoa continua a perceber a sensação que tinha antes. “O estímulo continua chegando ao córtex”, detalha. O neurocirurgião lembra que muitas pessoas já foram consideradas com problemas psíquicos e comportamentais por reclamar da dor fantasma. “Mas a sensação é real e existe”, assegura.

A busca por novas formas de lidar com a dor fantasma é importante porque os métodos disponíveis hoje nem sempre surtem efeitos. O tratamento medicamentoso – são prescritas drogas de vários tipos, de analgésicos a antidepressivos e anticonvulsionantes – ainda deixa a desejar. Há também procedimentos cirúrgicos que interrompem a via de circulação da dor. “É como uma lâmpada que está acesa. Quando o fio que conduz a energia é cortado, ela se apaga. A dor também é transportada assim, por um feixe nervoso entre a medula e o cérebro”, explica Correa. O nome desse procedimento é cordotomia, cirurgia que “desliga” algumas fibras nervosas da medula para amenizar a dor intratável. “Mas essa é uma atitude extrema”, observa o médico.

Não invasiva Para Ortiz-Catalan, autor do estudo com realidade aumentada feito na Suécia, os pacientes têm muito a ganhar com uma técnica que dispense medicamentos (e seus efeitos colaterais) e não seja invasiva como a cordotomia. E a julgar pelo estudo de caso apresentado por ele e colegas, o novo método tem grande potencial terapêutico.

“Meu marido poderá viver mais, já que a dor agora tem um papel menos importante (em sua vida). Aqueles perto dele percebem isso”, relata a mulher do voluntário no artigo. O paciente também comemora: “Os períodos sem dor são algo quase completamente novo para mim. E a sensação é extremamente agradável”. (IO)

 

Ilusão
A terapia do espelho foi adotada a partir dos anos 1990. Nela, o paciente que teve uma perna ou um braço amputado se posiciona em frente a espelhos, tendo a ilusão de que ele ainda possui os dois membros saudáveis. Assim, ele é pedido para tentar mover as duas pernas ou os dois braços ao mesmo tempo, vendo no espelho ambos se mexerem. A estratégia engana o cérebro e a sensação incômoda diminui em algumas pessoas.

 

Palavra de especialista

Pedro Luiz de Paula Filho,
professor doutor em ciência da computação da Universidade Tecnológica Federal do Paraná

 

Tecnologia multiuso

“Basicamente, a ideia de realidade aumentada é captar alguma imagem, por câmera, por exemplo, e projetá-la. Essa já é muito utilizada na vida prática por algumas empresas. É possível simular uma planta de um espaço e projetá-la em 3D para que o cliente possa ver a casa, como ela vai ficar. Dependendo da utilização, pode ser cara ou não. Há um caso de um prédio inteiro que foi simulado virtualmente para que os clientes e investidores o vissem de cima, no terreno, enquanto sobrevoavam o local com helicóptero. Aí, o investimento é maior. Mas há coisas simples. Uma empresa de óculos utilizou, pelo site, a captura da imagem do cliente pela câmera do computador para simular como o produto ficaria no rosto dele.
Os valores vão depender do tipo de aplicação.”

 

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Fonte: em.com.br

EU TENHO 99 PROBLEMAS… A PARALISIA CEREBRAL É SÓ UM DELES

“Eu tenho paralisia cerebral. Eu tremo o tempo todo”, Maysoon Zayid abre-se no início desta palestra emocionante e hilária. (Sério, é hilária.) “Eu sou um misto de Shakira com Muhammad Ali”. Com graça e humor, a comediante árabe-americana nos leva em uma turnê das suas aventuras como atriz, comediante stand-up, filantropa e defensora dos deficientes.

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Escritora, atriz, humorista, Maysoon Zayid é co-fundadora do New York Arab-American Comedy Festival. Já no início da sua carreira como atriz, ela percebeu que conseguiria muito mais tempo de permanência nos palcos – e aplausos – se passasse a mostrar o quanto ela pode ser engraçada e divertida. Como ela disse à BBC, “ficou óbvio para mim que, nos Estados Unidos, uma garota de origem estrangeira, portadora de necessidades especiais, nunca conseguiria um emprego a não ser que aprendesse a se por realmente em pe’”.

De origem palestina, Zayid faz ironias a respeito de sua família, a cultura global, e sua vida de mulher com paralisia cerebral. Todos os anos ela passa alguns meses nos territórios palestinos fazendo workshops para crianças órfãs, desamparadas e com necessidades especiais que vivem em campos de refugiados, usando sua arte e espírito para ajuda-los a superar seus traumas e encontrar um caminho na vida.

 

Tradução integral da palestra de Maysoon Zayid no TED: 

Alô TEDWomen, e aí? (Ovação)

Está fraco. Alô TEDWomen, e aí? (Ovação)

Meu nome é Maysoon Zayid, e eu não estou bêbada, mas o médico que me trouxe ao mundo estava. Ele cortou minha mãe seis vezes, em seis direções diferentes, sufocando a pobre de mim ao longo do processo. E como resultado, tenho paralisia cerebral (PC), então, eu tremo o tempo todo. Vejam. É muito cansativo. Sou uma mistura de Shakira, com Muhammad Ali. (Risos)

A PC não é um problema genético. Não é defeito de nascença. Não se pega como doença. Ninguém rogou praga no útero da minha mãe, e não é porque meus pais são primos de primeiro grau, o que, aliás, eles são. (Risos) Só acontece por acidente, como o acidente do dia do meu nascimento.

Vou avisá-los, não sou inspiradora, e não quero que ninguém aqui se sinta mal por mim, porque em algum momento da suas vidas, vocês já sonharam ser deficientes. Acompanhem-me numa jornada. É véspera de natal, você está no shopping, dando voltas e voltas em seu carro, procurando vaga para estacionar, e o que você vê? Dezesseis vagas reservadas para deficientes, vazias. E você pensa: “Deus, será que não dá para eu ser um pouquinho deficiente?” (Risos) Deixa eu dizer uma coisa para vocês: eu tenho 99 problemas e a paralisia cerebral é só um deles. Se existisse uma Olimpíada da Opressão, eu ganharia uma medalha de ouro. Eu sou palestina, muçulmana, do sexo feminino, deficiente e… moro na Nova Jersey. (Risos) (Aplausos) Se você não se sente melhor consigo mesma, talvez deveria.

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Cliffside Park, Nova Jersey, é a minha cidade natal. Eu sempre adorei o fato de que o meu bairro e a minha doença têm as mesmas iniciais. Também adoro o fato de que se eu quisesse andar da minha casa até Nova Iorque, eu poderia.

Muitas pessoas com PC não conseguem andar, mas meus pais não acreditavam em “não consigo”. O mantra do meu pai era: “Você pode, e muito!” (Risos) E assim, se minhas três irmãs mais velhas limpavam o chão, eu também limpava. Se elas iam para a escola pública, meus pais processavam a escola para garantir que eu fosse também, e se não tirássemos nota 10, minha mãe dava chineladas em nós todas. (Risos) Meu pai me ensinou a andar quando eu tinha cinco anos. Ele colocava meus calcanhares sobre seus pés e simplesmente andava. Uma outra tática dele era balançar uma nota de um dólar na minha frente e eu tinha que correr atrás dela. (Risos) O meu lado “dançarina de striptease” era muito forte… (Risos) É. Quando o primeiro dia do jardim de infância chegou, eu já andava como uma campeã que tinha levado muitos socos.

Quando eu era pequena, havia apenas seis árabes na minha cidade e eram todos da minha família. Agora, existem 20 árabes na cidade, e ainda são todos da minha família. (Risos) Eu acho que nunca notaram que não somos italianos. (Risos) (Aplausos) Isto foi antes do 11 de setembro e antes dos políticos considerarem apropriado usar “Eu odeio os muçulmanos” como um slogan de campanha eleitoral. Cresci com pessoas que não tinham problema com minha religião. Porém, pareciam muito preocupados de eu morrer de fome durante o Ramadã. Eu explicava para eles que eu tinha gordura suficiente para sobreviver por três meses, e jejuar entre o nascer e o pôr do sol é muito fácil.

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Eu já fiz sapateado na Broadway. É, na Broadway. Uma loucura. (Aplausos) Meus pais não tinham como pagar um fisioterapeuta, então, me botaram na escola de dança. Aprendi a dançar de salto, por isso sei andar de salto. E sou de Jersey, e nós nos preocupamos muito em ser chiques, então, se minhas amigas usavam salto alto, eu também usava.

E quando minhas amigas iam passar as férias de verão no litoral de Jersey, eu não ia. Eu passava meus verões em uma zona de guerra, porque meus pais tinham receio de que, se não fôssemos à Palestina todo verão, iríamos acabar virando a Madonna. (Risos) As férias de verão eram, geralmente, meu pai tentando me curar. Eu bebi leite de veado, colocaram ventosas nas minhas costas… eu fui mergulhada no Mar Morto… eu me lembro de sentir meus olhos ardendo na água e de pensar: “Está dando certo!” (Risos)

Uma cura milagrosa que encontramos foi a ioga. Tenho que confessar, é muito chato, mas antes de fazer ioga, eu era uma comediante de stand-up que não podia ficar em pé. E agora eu posso ficar de cabeça para baixo. Meus pais sempre enfatizaram a ideia de que eu podia fazer o que quisesse, que sonho nenhum era impossível, e meu sonho era aparecer no seriado “General Hospital”. Eu estava na faculdade na época da ação afirmativa para deficientes e consegui uma bolsa de estudos para a ASU, Universidade do Estado do Arizona, porque eu me enquadrava em todas as cotas. (Risos)

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Eu era como o lêmure, o bichinho de estimação do Departamento de Teatro. Todo mundo me adorava. Eu fazia o dever de casa das crianças “menos inteligentes”. Eu fechava todas as minhas matérias com 10 e fechava todas as matérias deles com 10. Toda vez que eu fazia uma cena de À Margem da Vida, meus professores choravam. Mas nunca fui escolhida para o elenco. Finalmente, no meu último ano, eles resolveram fazer um espetáculo chamado “Eles Dançam Super Devagar em Jackson”. É uma peça sobre uma menina com PC. Eu era a garota com PC! Então, eu comecei a anunciar em voz alta: “Até que enfim vou ter um papel! Eu tenho paralisia cerebral! Finalmente livre! Graças ao Deus todo-poderoso, estou finalmente livre!” Eu não consegui o papel. (Risos) Sherry Brown foi a escolhida. Fui direto ao diretor do departamento de teatro chorando, como se alguém tivesse matado o meu gato, para perguntar por quê, e ela disse que foi porque eles não achavam que eu conseguiria fazer as acrobacias. Eu disse: “Pera aí, se eu não posso, a personagem também não pode”. (Risos) (Aplausos) Era o papel que eu literalmente nasci para fazer, e eles escolheram uma atriz sem paralisia cerebral! A faculdade imitava a vida. Hollywood tem uma história sórdida de escolher atores fisicamente capazes para encenar deficientes na tela de cinema.

Depois de me formar, voltei a morar em casa, e meu primeiro trabalho como atriz foi servir de extra em um seriado. Meu sonho estava se realizando. Eu sabia que seria promovida de “diner diner” para “melhor amiga louca” a qualquer momento. Mas, ao invés disso, continuei sendo pouco mais que um móvel qualquer que você só poderia reconhecer pelas minhas costas, e ficou claro para mim que os diretores de elenco não contratam atores fofos, étnicos, deficientes. Só contratam pessoas perfeitas. Mas houve exceções à regra. Cresci assistindo Whoopi Goldberg, Roseanne Barr, Ellen, e todas elas tinham uma coisa em comum: Eram comediantes. Então, eu me tornei uma comediante. (Risos) (Aplausos)

Meu primeiro trabalho foi transportar comediantes famosos de Nova Iorque para espetáculos em Nova Jersey, e nunca vou me esquecer da cara do primeiro que eu levei, quando se deu conta de que ele viajava em alta velocidade na rodovia de New Jersey com uma garota com PC dirigindo. Eu já fiz espetáculos pelos Estados Unidos todo, inclusive em árabe, no Oriente Médio, sem ser censurada e sem véu. Alguns dizem que sou a primeira comediante stand-up no mundo árabe. Eu não digo que seja a primeira, mas sei que eles nunca tinham ouvido aquele pequeno boato antipático de que as mulheres não são engraçadas, e eles nos acham cômicas.

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Em 2003, meu irmão de outra mãe e pai, Dean Obeidallah, e eu começamos o Festival de Comédia Árabe-Americano em Nova Iorque, agora em seu décimo ano consecutivo. Nosso objetivo é mudar a imagem negativa dos árabes-americanos na mídia e também lembrar os diretores de elenco que sul-asiático e árabe não são sinônimos. (Risos) A integração dos árabes foi muito mais simples do que vencer o desafio contra o estigma da deficiência.

Minha grande chance veio em 2010. Fui convidada para aparecer no programa de TV a cabo “Countdown With Keith Olbermann”. Eu entrei como se estivesse indo para um baile, e eles me empurraram para o estúdio e me fizeram sentar em uma cadeira giratória de rodinhas. Eu olhei para o gerente de palco e disse: “Com licença, você pode me trazer uma outra cadeira?” E ela olhou para mim e disse: “Cinco, quatro, três, dois…” E estávamos no ar! Eu tive que me agarrar à mesa do apresentador para não rolar fora da tela durante a transmissão, e quando a entrevista terminou, eu fiquei furiosa. Eu tive minha chance e estraguei tudo, e eu sabia que nunca iria ser convidada de novo. Mas não só o Sr. Olbermann me chamou de novo, como me deu a oportunidade de ser uma colaboradora regular, e pregou minha cadeira no chão. (Risos) (Aplausos)

Uma fato engraçado que aprendi trabalhando com Keith Olbermann foi que os humanos na Internet são desprezíveis. As pessoas dizem que crianças são cruéis, mas nunca fizeram piada sobre mim quando criança ou depois de adulta. De repente, minha deficiência virou motivo de escárnio na Internet. Eu vi clipes, online, com comentários do tipo: “Ei, por que ela está fazendo o ‘rebolation’?” “Ei, ela é retardada?” E meu predileto: “Coitadinha da terrorista de boca torta. Qual será o seu problema? Nós precisamos rezar muito por ela.” Um comentário até sugeriu que eu acrescentasse minha deficiência aos meus créditos: “roteirista, comediante, paralítica cerebral”.

Deficiência é algo tão visual quanto raça. Se um usuário de cadeira de rodas não pode interpretar Beyoncé, então, a Beyoncé não pode interpretar um usuário de cadeira de rodas. Deficientes são a maior… É, aplaudam por eles, gente. Vamos lá. (Aplausos) As pessoas com deficiência são a maior minoria no mundo, e somos os mais sub-representados na área do entretenimento.

Os médicos disseram que eu não andaria, mas estou aqui, diante de vocês. Mas se eu tivesse crescido com mídia social, acho que não estaria. Espero que juntos possamos criar imagens mais positivas da deficiência na mídia e no dia a dia. Talvez, se houvesse mais imagens positivas, menos ódio seria fomentado na Internet. Ou talvez não. Talvez educar bem uma criança ainda exija um esforço coletivo.

Minha tortuosa jornada me levou a lugares espetaculares. Eu desfilei no tapete vermelho ao lado da famosa diva da TV, Susan Lucci, e da icônica Lorraine Arbus. Fiz um filme com Adam Sandler e trabalhei com meu ídolo, o fantástico Dave Matthews. Fui a atração principal em um tour mundial do “Arabs Gone Wild”. Fui escolhida para representar o Estado de Nova Jersey na Convenção Nacional Democrata de 2008. E fundei a “Maysoon’s Kids”, uma organização de caridade que visa a dar às crianças refugiadas palestinas uma parcela da chance que meus pais me deram. Mas o momento mais notável foi quando… antes deste momento… (Risos) (Aplausos) O momento mais notável foi quando fiz uma apresentação para o homem que voa como uma borboleta e ferroa como uma abelha, tem Parkinson e treme como eu, Muhammad Ali! (Aplausos)

Esta foi a única vez que meu pai me viu fazer uma apresentação ao vivo, e eu dedico esta palestra à sua memória. (Árabe) “Que Allah tenha piedade da sua alma, pai.”

Meu nome é Maysoon Zayid, e se eu “posso, e muito!’, vocês “podem, e muito!’ (Aplausos)

 

Por: Maysoon Zayid

Tradução: Tradução: Aline Pereira. Revisão: Gustavo Rocha 

Vídeo: TED – Ideas Worth Spreading

 

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Fonte: Brasil247